Eu era menina
parei pra ver um fila de formigas
imitei-as

fiquei demais ao sol
as rugas vieram
e não deu tempo
de perguntar aos anos que se foram
quando eu devia passar de dama
a cavalheiro
e conduzir-lhes.

o que estava comigo sorriu
deu-me a mão

agarrei-a
e ficamos, de mãos dadas
vendo uma fila de formigas.
O sol mais bonito de vida da gente
na verdade
é o que brilha depois que já se foi,

né?

Com Verso


Confesso que me agonia, e muito

Ver uma fruta estragada.

Há não mais que alguns dias estava ali, nova,

Superior, escolhida.

Então hoje lhe tiram alguns pedaços

Reaproveitam-lhe só parte

e pronto!

O resto vai-se para o lixo.

“Sim Senhora, Dona Amora!”

Brinca a pequena da vizinha

Tão perfeitinha... ainda.

Se o bicho que estraga a fruta vem do ar

Mora nela desde sempre ou é bênção do Senhor

- que inferno não seria um mundo de laranjas boas?

Não sei

E nem interessa.

Mas de vez em quando arde a dúvida: o que sobra?

Para fugir da incerteza, inventei uma resposta:

Resta a lembrança,

Retrato a ser feito.

Com verso.

Com Lápis, papel, boca, olhos, sinceridade

E cinismo.

Curo, adoeço

Arrumo a mim e ao mundo...

Às vezes também destruo tudo.

Revelo aos supetões minhas idéias,

Depois as escondo à chave no criado-mudo.

Que a traça roa

Que a língua se perco

Enquanto há verso

Sou erupção

E mesmo que mais tarde eu passe

Mude

Vá embora!

Já não assusta tanto

Porque vou, é fato.

Mas, retrato, fico.


Se eu fizer um versinho gostoso
que te deixe com fome
me come?
Acho que eu nunca saí daqui
ou quero voltar.
Colocar a mão na terra
puxar a raiz seca
pintar a casa
deitar no sofá.

Quero por mim.
Não sei se isso chama honra
ou amor.

Todos Perdedores

Sequer reconheci de longe
passei reto.
Esperei que meus olhos avisassem
um dejavu qualquer

Cansei.

Segui a pé.
Primeiro acha-se a estrada, depois o número.

O portão é o mesmo
a entrada melhorou!
E eu? Devia ter parado por aí.

Barro,
mato avançando sobre a grama.
E o caminho de pingos d'ouro, melhor contornar.
O verde da casa desbotou
por dentro e por fora
-até parece cinza
as paredes e as árvores.

A tia, velhinha
cercou a própria casa.
Por trás dos pilares e losangos
é do jeitinho que eu lembro.

Mas, coitada!
Sendo a tia eu evitava as janelas.
Já não vai ter a vista os irmãos
nem o cachorro que eu abandonei aqui
quando fui embora.
Fugiu, claro.
Quando adotou meu pai
ele procurava um lar
não esse campo de batalhas.

Terreno de guerra onde nunca dois olhares se desafiaram
e que hoje expõe-se,
reflexo da própria história.

A natureza virgem é soberana
Mas se a gente coloca a mão
reclama ser dominada.
Por isso, hoje esse lugar definha.

Desculpa, vó!
Que dor me deu colocar os pés aqui!
Lembrei de ti
do pai
e desses recomeços que não deram certo enfim!

Mas sabe, vó,
e que ironia, né,
fiquei com vontade de recomeçar também.
Que engraçado, né. A gente é mesmo capaz de seguir em frente, mesmo quando parecia que não. Por alguns momentos, muitos ou poucos, tudo pareceu com aquelas histórias todas que a Disney contava entremúsicas. Né?

Talvez todos sejamos netos de Dom Quixote. Oxalá que nos curemos! Ou que, ao menos, encontremos um bom Sancho Pança...

Ontem

Surpreendi-me,
em plena madrugada
Sem sentir a tua falta.

Daí fiquei ali parada
Olhando em torno
Há muito tempo só desfruto da tua companhia
Mas quase senti saudade
de te imaginar entre as pessoas
ofuscando-as
ofuscando a mim.

Ontem
Brilhei.


Sentimentando

Eu sou tão mais feliz quando não te vejo e tão mais completa quando não pretendo te encaixar na minha vida, que só posso concluir: és peça que me sobra, não que me falta!

Eu acho que

muito mais importante do que o que eu vou encontrar na vida, já que isso eu não posso prever, é como a vida vai me encontrar.

O PROVÍSÓRIO ME ASSUSTA.

E sempre segue comigo essa impressão de que as pessoas se cansaram de mim.


prontofalei.
CENSURA é uma palavra difícil de escrever e feia de significado, mas a gente faz. A gente corta velhos textos e joga fora para o fundo do próprio silêncio algumas frases. Talvez as mais verdadeiras. Aliás, hipocrizias a parte, a gente censura não é pra calar, mas para falar, mostrar, vender o que convém. E gentileza trocar " a gente" por "eu" e o "talvez", ignorar. Que volta e meia "a gente" cansa de eufemismos e resolve ser honesta com o próprio espelho.
Ando
de salto quebrado
blusa suja
Calça rasgando
e sigo com um sorriso safo
[escrachado, zombeteiro
de quem vive num mundo
[inventado
onde posso andar me lixando
para os farrapos
Se o coração seguir batendo
E se um fio de dúvida passa
[no meu sorriso
É que cabe nesse meu mundo
[inventado
A ironia de me ser o único verdadeiro.

Eu sei, as pessoas não tem culpa de não serem

quem eu quero que sejam. é hipocrizia para comigo mesma, é o velho hábito de criar expectativa de que o bom vai ficar cada vez melhor, mas será sempre igual. e não é, né. nesse mundo que tu é rápido e mutável, eu até posso conservar em mim um quê de perene, mas do que me rodeia, já dizia camões, mudam-se os tempos. que que eu posso fazer? choro ou sorrio, e qualquer reação exige um quê de falsidade. Na dúvida, acho que vou alternando de uma para outra, e quem sabe alguma terceira, se aparecer.

"se estamos todos sozinhos, estamos juntos nessa também."

não é assim? sou diferente de todas as pessoas, e juntamente aí é que mora a nossa igualdade.

(..) aceito paranóias, dou risada de algumas cicatrizes e choro por outras SIM, mesmo que não estejam no meu corpo. Afinal, negro, amarelo ou branco, são todos irmãos.






não preciso ser surpreendida sempre, não tenho medo da rotina nem do tédio. Só quero que a vida corra solta, mas que eu esteja de mãos dadas.
olha lá naquele poste lá, ó. o joão de barro fez duas casinhas, uma grudadinha na outra. Será que é porque tinha goteira na antiga? ou quem sabe veio um amigo morar perto, ou mesmo ele se separou da mulher. cê nem olhou, né? olha lá, ó. olha! Gosto de ficar imaginando essas coisas. É tão pequeno, mas é tudo que ele tem. e desse tamainho assim, o mundo deve ficar bem maior, né? que nem quando a gente é criança e toda saleta parece um salão enorme. E eu ia gostar de fazer a minha própria casa, também. Acho que se fosse com a minha mão, que nem o joão faz com o bico, uma toquinha de barro igual a dele ia ser a minha mansão, e eu ia ter tanto orgulho, cê nem imagina.

entre integrações

Das promessas que faço nem falo, não as faço por capricho. Promessa minha é certeza e já existe em mim antes que eu decida se a quero. Das certezas que tenho não envergonho, embora cale. As tenho por momentos e nestes cabem estas [certezas] tão certas que não as possuo como objetos, mas pertenço a elas como se eu não mais fosse que a expressão de sua existência. Calo, porém, porque é meu corpo e minha boca que pagam quando passam-se instantes e já me vejo outra, de novos olhos e desejos. Dos caminhos que sigo não sei bem. Fico tão preocupada em manter o sorriso de sempre no mesmo tom que me é hábito no corpo que habito, escondendo o novo pulsar, que crio caminhos escondidos dentro de mim. Vielas que mais além, por desuso, desaparecem. O mato só cresce onde passa o gentio. Quando a certeza se põe incerta e mudo a trilha que percorro, do que se torna velho resta apenas uma leve marca de passagem, já a chamaram de lembrança. Do que serei quando estiver grande e bem tecida essa colcha de caminhos aqui dentro não dou conta, mas morro de curiosidade, dores e vaidades por esses retalhos que desconheço.

Ps. Muito embora a incerteza me consuma, sorrio de canto, na certeza de que a dúvida passa, como eu.

CONFESSO

De vez em quando eu fico mesmo com vontade de morar nos meus contos de fada mais bonitos. E daí, que se foda o karma, darma e toda essa responsabilidade que é viver. Quero uma casa no campo rede na sacada, sexo bom e livro velho, ne-ces-sa-ria-men-te nessa ordem.



tenho medo de um dia achar que
não é meu o direito de ser feliz.

Minha Vida

Eu passo pela vida levemente
tendo mais coração do que memória.
Vivo a esquece a minha própria história
e vivo a renascer, diariamente.

Eu posso desistir tão facilmente
que nem percebo a minha luta inglória
pois esqueço depressa uma vitória
e esqueço uma derrota de repente.

Eu passo pela vida de passagem
vou tão interessada na paisagem
que raramente chego a estar comigo.

Então descubro, na maior surpresa,
que estou cheia de mágoa e tristeza,
Mas choro um pouco, rio um pouco...

E sigo!


Giuseppe Ghiaroni
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Nao há mal pior do que a descrença

Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir (?)

Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão

COMO DIZIA O POETA, VÍNICIUS. - O de Moraes
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